Estávamos escrevendo sobre os andamentos da guerra naqueles dias, arrumando algumas informações e corrigindo algumas fotos quando um jovem entrou em nossa pequena gráfica afobado. Estava sendo perseguido por jovens ricos e desajuizados.
As marcas no corpo do menino foram à gota dágua para mim. Tirei a camisa, exibindo a faixa cerimonial por baixo dela, e marchei para fora contra os delinqüentes. Ali estavam eles, sete, parados com pedras e paus, com seus olhares perdidos e toda a empáfia que o dinheiro pode comprar.
Naquele instante senti que o espírito daquele menino imigrante estava repousando sobre meus ombros, ele era minha responsabilidade. Minha missão, meu dever, meu filho Itachi, e todas as verdades que queria falar para a “garota de ouro” com quem eu tinha casado. Naquele momento não era mais eu, o oficial do Império em missão, eu era mais do que um homem, um mortal, eu era o espírito do meu povo. O coração do povo pulsava em meu peito.
Os adolescentes ensandecidos partiram para cima de mim, e eu para cima deles, num grito vindo do fundo da alma. E quando nos chocamos percebi que não estava mais só, meus amigos, meus irmãos da Shindo Renmei estavam comigo. Lutamos juntos, e vencemos aquela batalha.
Os inimigos fugiram correndo e gritando sandices, nós ficamos todos parados, um olhando para o outro compartilhando o espírito de nosso povo que animava nossos corações. Naquele momento, se o maldito corvo da praça de Nanquim pudesse me ouvir, tenho certeza que ele iria tremer. E jamais iria me confundir com um almoço.
A policia chegou depois de alguns minutos, mas as pessoas nos protegeram, tivemos tempo de nos banhar e recompor até que fomos até a delegacia. Nada aconteceu, todos sabiam que quando pressionado toda fera ataca, e o delegado sabia que estavam nos pressionando.
No sexto mês a jovem Takahashi teve que partir. Ela e a família de meus grandes amigos e caricatos irmãos tinha que se mudar, São Paulo estava se tornando violenta demais. A guerra que eles fugiram estava os alcançando, e como pássaros continuariam sua jornada em busca de um lugar melhor, mais tranqüilo.
Eu me despedi de minha amante, com todo o fervor possível e imaginável. Nós sabíamos que não poderíamos ficar juntos, não era amor o que sentíamos, era mais do que isso. Era um fogo capaz de queimar nossa pele, incendiar nossas vidas, e tudo o que não precisávamos era cometer desatinos. Ela tinha sua idade e nome a zelar, eu tinha minha missão, que a cada dia exigia mais de mim. Nos amamos uma última vez.
Eu ajudei os Takahashi a partirem. Naquele dia chorei, chorei não por tristeza, mas por agradecimento. Naquela tarde de 1944 eu nascia para o mundo. Foi em meio a lágrimas que eu aceitei meu destino, e abracei meu futuro. Sai do Japão para cuidar do coração de meu povo, e tão longe de casa, meu povo é que cuidou de meu coração.
Não me sentia mais confuso. Não havia espaço para questionamentos ou para aquela mulher que era chamada de “ouro”. Suas complicações eram passado, eu estava diante do presente, diante do futuro. À noite saí com meus amigos da Shindo Renmei, nós bebemos e terminamos a noite cantando os hinos de nosso povo.
Os dias se passaram, vários contatos eu acabei fazendo para estimular mais a memória de nosso povo. Trabalhei com mais afinco, com mais gana, envolto no espírito do povo. Seis meses se passaram, seis meses onde deixei de ser aquele jovem soldado tolo e cheio de desconfiança e me tornei um representante de meu povo.
Aqui, junto de meus irmãos eu conheci algo maior do que o casamento. Algo maior do que as hierarquias de comando, ou as frivolidades do cotidiano. Eu encontrei aquilo que faz um soldado, aquilo que faz um samurai, o gosto pela luta. A luta por aquilo que acreditamos, a luta por nosso quinhão sagrado de vida.
Um vento gelado atravessa a janela. Meu cigarro se acabou faz tempo. Comprimento um homem na rua. E quando olho diante de mim, para o vale de residências que desfila em minha visão, eu vejo uma ave negra sentada no fio de eletricidade.
Minha garganta fica seca. Eu olho bem para saber se não estou sonhando. Estou num pais tropical, numa cidade grande...Aqui não existem corvos! Entro e me fecho em casa, sentindo algo que não sinto há muito tempo, medo.
Eu o vejo pela ultima vez. Ali sentado à janela, empoleirado com seu cigarro, cheio de si. Banhado pela luz vermelha do néon. Como quando nos vimos pela primeira vez. Ele deitado nos corpos, sorrindo feito um imbecil. Tripudiando com seus amigos sobre os cadáveres de milhares de inocentes.
Orgulhoso de sua obra. Anestesiado por seu cotidiano de massacres. Embriagado e entorpecido por seus brinquedos, suas armas e seus conhecimentos. Eu o vejo, sinto o cheiro dele, ele me dá água na boca. É meu alimento, minha caça, minha propriedade. Seu orgulho e arrogância serão meu alimento.
Eu deixo que ele me veja, e me delicio vendo a cara de espantado dele. Eu sempre o vejo, eu sempre o ajudo, não quero enfrentar um inimigo fraco. Quero-o forte, no ápice de seu poder. Eu dei a ele tudo o que ele precisava. Tirei-lhe as dúvidas e deixei que ele fosse em busca das certezas, suas certezas.
Aqui, nesta terra, ele encontrou outra situação difícil, e não percebe que esta na mesma situação de quando nos conhecemos. Mais uma vez o ciclo se fecha, e mais uma vez ele não aprende sua lição, não evolui, não segue em frente. Permanece monolítico em suas prisões tragando inocentes como os habitantes de Nanquim, sua esposa e filhos, e os Takahashi...Ele não percebe o mal que faz, não percebe nada alem daquilo que quer perceber.
Assassinando diariamente a verdade, destruindo a inocência de várias pessoas, ele segue cheio de si pelo mundo, e não percebe nada. Não percebe que o único culpado por tudo que acontece na vida dele, é ele mesmo. Enfim, ele esta quase pronto para ser servido. Esta chegando à hora de meu banquete.



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