Com a janela aberta acendo um cigarro e fumo despreocupadamente. Minha calça de dormir é folgada e me permite sentar facilmente na janela, assim posso ver a noite. Nestes seis meses conheci pessoas, fiz meus contatos e me juntei a Shindo Rimei. Tudo corre conforme o planejado.
Conheci um pouco de como estão vivendo nossos patrícios. E não gostei disso, há muita dureza na vida deles. Aqui, no coração do inimigo tudo o que eles encontram é solidão e desprezo. Nossa cultura luta impiedosamente, os costumes são bem diferentes.
Temos que nos acostumar com as piadas de mal gosto e os abusos que o povo daqui nos dedica. Em tempos de guerra nada pior do que uma colônia em território inimigo. Mas nosso espírito é bravo, imbatível! E aqui se encontram os patrícios que saíram do Japão em épocas ruins, tão ruins quanto esta.
Agora revejo minhas crenças. O espírito do povo precisa de força. Sinto-me um tolo por ter duvidado dos ideais de nosso Imperador. Guerras não são lugares aprazíveis, longe disso. Muitos fogem dela, e o que encontram quando fixam suas novas moradas? Hostilidade.
Esta guerra esta durando tempo demais. Consumindo vidas demais. Ouço falar de nossos aliados, dos guetos Alemães e da campanha Brasileira na Itália. Há tantos fatores envolvidos, eu não sabia disso, de nada disso.
Nós lutamos por coisas que parecem estar completamente fora da visão dos outros. Nós temos uma forte ligação com os céus, ele nos deu um Imperador. Assim como aqui todos falam que os céus lhe deram um sacerdote. Para nós, conquistar as terras no continente é estratégico, nós estamos numa ilha, precisamos de mais terra.
Mas e nossos aliados? Lutam pela supremacia de sua raça e idéias. Somos diferentes, cada um de nós. Cada um luta por algo completamente diferente, esta não é uma guerra, são várias. E nos colocam como mentirosos por aqui. Chama-nos de assassinos, facínoras e anti-semitas.
Este mundo esta louco. E eu estou no cerne da loucura. Eu protejo nosso povo destas hostilidades aqui. Desde que começamos a fazer nosso próprio jornal tenho colocado uma outra visão sobre os andamentos da guerra. Tenho lutado para que nosso espírito inquebrantável torne-se forte.
Muitos olham para mim com desconfiança. O próprio governo desta terra olha para mim com desconfiança. Mas eu não ligo, estou numa missão, que começou como todas as outras, num âmbito terreno, mas agora...Agora percebo o quão sagrada é minha luta, eu luto pelo espírito do meu povo. E quem me ordena não é ninguém menos do que um filho dos céus.
Nestes últimos seis meses eu me estabeleci bem. Conheci toda a caricata família de Takahashi. Acabei me envolvendo com uma de suas irmãs, a mais nova. Uma bela moça dotada de um corpo que eu nunca vi igual. A mistura de nossos povos produziu uma beleza ímpar.
Comecei a trabalhar na feira municipal com a família Takahashi. E aos poucos fui conhecendo mais sobre como estavam nossos patrícios. A dura vida cotidiana, a escolha pelas áreas rurais, e a dificuldade de manter nossa cultura. Coisas simples como o clima mais quente, e a alimentação...A abundancia da carne...
No começo eu pensava em Machi, mais do que em meu filho. Tinha saudades. Mas a jovem Takahashi me fez lembrar que um homem é muito mais do que seus sentimentos. E nos braços dela encontrei algo que reluz mais do que ouro, ou bronze. O sangue. O fervor do sangue.
Itachi é diferente, eu faço isso por ele. Ele sempre será um bebê para mim. Uma linda e frágil vida. Como tantas que eu vi aqui. Senhoras e senhores velinhos passando fome, outros com semblantes pesados, temerosos com a guerra, com o caminhar desta violência toda.
Mulheres, mães e irmãs, todas inseguras quanto ao destino de seus entes queridos. Aqueles que estudam, tem medo das chacotas, das violências praticadas contra nosso povo. Há briga entre as colônias, há um estado de emergência, e o governo que nos protege, manda soldados para matarem nossos irmãos do front.
Essa fragilidade toda tem o rosto de Itachi. Eu penso nele todo dia, toda hora. Escrevo cartas, que um dia entregarei em mãos, cada carta escrita com o coração apertado, aflito. Sem escrever esta missão seria quase impossível. Mas com as cartas sinto que algo bom esta acontecendo há uma esperança.
Transformador é assim que posso definir o que esta me acontecendo. Os dias que passo entre os Takahashi são divertidos, as noites são quentes e prazerosas. E ali permaneci até ser apresentado a toda colônia, e conhecer a Shindo Renmei. Nós começamos a trabalhar juntos no terceiro mês de minha estadia. Eu fui deixando os Takahashi, e me integrando ao cotidiano da organização.
Começamos a produzir um jornal, a realizar festas típicas e a estimula nossa cultura. O que começou a me colocar frente a coisas de minha infância, foras às semanas mais felizes do mundo, e o tempo onde eu e a jovem Takahashi mais aproveitamos o frescor de nossos corpos. No final do quarto mês, eu não me lembrava mais do gosto do beijo de Machi, nem de como era dormir com ela, tudo que eu sabia é que estava deixando de ser Tatsumasa realmente...Nascia um real senhor Sabato.



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