Março 06, 2008

A visita do Tengu, parte V - Glória e honra

Dia da partida. Esta tudo pronto, minhas malas estão comigo, os passaportes falsos, tudo arranjado. Machi e Itachi me olham friamente. Eu me despeço de meu filho, um longo abraço. Não há lágrimas...Ele esta aprendendo rapidamente a ser um adulto.

Machi. Seu abraço não tem ternura, é mais frio do que o quimono dela. Eu a abraço com força, quero esquentá-la. Mas ela esta alem de qualquer calor meu. Sinto um cheiro diferente nela, reconheço bem o que isto significa. É cheiro de nanquim. E significa que ambos irão ficar bem sem mim.

Eu deixo meus olhos encharcarem, não há lágrimas, só existem certezas. Aquele episódio fatídico deixou marcas. Em mim, em nós, e no mundo. Mas não há com que se preocupar, eu faço um carinho no queixo dela. Foram ordens, e num mundo perfeito, no mundo de nossos sonhos estas coisas não iriam acontecer.

Mais uma vez me sinto em contradição. É o momento da retirada, me viro e parto para o avião. Meu destino me aguarda, São Paulo, Brasil.

Dia da partida. Itachi segura firme minha mão. Ele não quer que o pai vá embora. Eu não quero que ele fique aqui. Pobre menino, mas vai passar, ele tem a mim. E eu não vou criá-lo num mundo de contradições e meias verdades, vou criá-lo para ser um homem responsável por seus atos.

Nosso império pode vencer quantas guerras quiser, nada de bom virá de tanta morte. O sangue é necessário para a vida, mas não esse tipo de sangue, não há nada de sagrado nele, há apenas dor, angustia e mentiras. E este homem, Tatsumasa, meu marido, é o símbolo desta condição humana deplorável.

Observo ele abraçar Itachi, meu filho, nosso filho. O menino quase chora, mas se contém. Então ele me envolve com seus braços, rígidos como armas. O corpo dele inteiro é uma arma. Sempre rígido e sempre forte. Não há espaço para suavidade nele, não há espaço para humanidade nele. Qual a diferença entre este homem e um tigre? Nenhuma.

Seus passos são contraditórios. Ele deseja ficar, mas irá embora. Esta perdido dentro dele, com certeza não percebe o quanto Itachi esta se esforçando para não perder seu presente. Seu pai. Como também não deve estar prestando atenção em quanto mal ele fez a mim, ao amor que juramos manter.

Ele se vira e sai. E também não percebe que é seguido de perto por uma mulher. Seus cabelos finos e longos, pretos como a noite, suas feições delicadas e o nariz desproporcional, fino e alongado. Ela sabe aonde vai, ela percebe. Ela olha para mim, sorri.

Eu devolvo o sorriso. Olho para aquele homem mais uma última vez. Tomo Itachi nos braços, e começamos nossa longa caminhada de volta à nossa casa.

O avião pousa em São Paulo. Uma bela cidade. Mais bonita que nas fotos. Caminho pelo aeroporto, agora não sou mais quem eu era. Chamo-me Sabato, Hideo Sabato. Em poucos instante vejo meu contato, Jorge Takahashi, vestindo um avental azul sujo. É um sujeito encorpado, misturando os traços orientais com traços típicos do ocidente.

Seus longos cabelos desgrenhados, seu fino bigode e o cheiro de frutas formam uma figura caricata. Quase tenho vontade de rir. Penso no espírito de nosso povo. Conversamos muito e incessantemente. Ele fala mal a língua dos pais, mas isso não o impede, nem o envergonha, o homem parece uma metralhadora!

Em momentos sei mais sobre a cultura paulistana do que aprendi nos últimos nove meses. Nós rodamos a cidade num caminhão velho. Sinto-me diferente, respiro um ar diferente...Estou de novo em solo inimigo. Estou tão exaltado que poderia gritar. Estou aonde deveria estar, no front.

Agora nada me irrita. Nem o falatório desembestado, nem o cheiro de frutas, nem a figura caricata ao meu lado. Aqui eu estou seguro e livre. Aqui não há Machi e seu pai, só há o campo para fazer o futuro para Itachi, aqui só há glória e honra. Tudo que um soldado precisa... Glória e honra.

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