Março 06, 2008

A visita do Tengu, parte IV - A verdade, mais uma vez, foi a primeira vítima

Tenho nove meses para aprender a cultura Brasileira, é o máximo de tempo possível, segundo meus superiores. Não é muito, mas também não irei sair daqui um falante na língua local, meu intuito é outro. É estimular os corações, os espíritos de nossos patrícios.

Ouço musica do Brasil, estudo revistas e ainda tenho aulas de português e história. Tudo muito sintético, tudo muito esterilizado. Meus orientadores se revezam, são cargas de oito horas diárias, fora o tempo de estudo em casa.

Itachi anda estranho, e Machi esta mais estranha ainda. Não há muito amor quando estamos na cama, parece mais com dever. Ela não conversa mais comigo, não sei se esta chateada pela missão. Estou me sentindo num vôo cego.

Um dia chego mais cedo do trabalho, e vejo saindo de casa ma mulher. A distancia não a reconheço, é morena, esguia, cabelos finos, longos e pretos. Ela sai de casa e se despede de Machi na porta. Eu diminuo o passo, não quero atrapalhar. A mulher se vai, e eu volto a minha passada normal.

“Uma visita, querida?” Pergunto sorridente! “Sim, uma amiga do templo” ela responde como se eu soubesse perfeitamente quem é a amiga. Dou de ombros, tenho muito a fazer, quando ela quiser irá falar comigo. Ela vale ouro.

Estou sentado na sala de aula improvisada do quartel. O sono toma conta de mim, fazem dias que e não durmo direito. Machi anda irritada, meus estudos estão evoluindo lentamente, estou com uma péssima sensação. Como se esquecesse de algo.

“Tatsumasa, seu dia esta chegando. Mas vejo que você anda muito cabisbaixo. Veja bem, há momentos em que as esposas não oferecem mais a seus maridos o frescor e a revigorância de uma bela noite! Por isso, quero que venha comigo, vamos nos divertir esta noite! Como no front!” O oficial diz isso em meio a sorrisos.

Seu sorriso é branco e perolado. O Oficial é um homem corpulento, de pele amorenada e olhos bem marcados. Sei que faz sucesso com as mulheres, a fama dele o precede. Dizem que numa visita à Alemanha ele causou frisson entre as oficiais!

Em casa, no jantar, Machi conversa frivolidades. Frivolidades é tudo que eu quero neste momento que antecede à traição. Entretanto frivolidades tem se tornado a tônica de nosso casamento. E neste sentido, as frivolidades são a única expressão de nosso amor.

É engraçado como o amor se transforma rápido. Posso dizer que em semanas Machi mudou, desde o episódio do banheiro. Nunca tive estas crises, e estamos em guerra...É tudo compreensível e normal! Sou um soldado, um oficial que faz a vida no front! Tudo bem que agora estou num período de tranqüilidade, mas ele apenas antecede minha nova missão.

Machi tem que entender, ela precisa entender isso. Ela é uma garota que vale ouro, foi o que o pai dela disse, não há motivos para que eu me preocupe. Mas agora, tudo que tenho são as frivolidades, esta é a única expressão de nosso casamento.

Que seja então. Esta noite terei uma bela “noitada revigorante” como nos bons e velhos tempos. Quando as coisas eram simples, eu só precisava decidir onde e quando atirar. Por isso gosto do exército, não há espaço para estas complicações, só existem ordens, comandos, e comandados.

Olho bem para meu filho, ele me faz pensar. E este é o tipo de pensamento que eu gosto. Pensar em como ele será quando crescer...Num mundo onde nosso império será vasto e poderoso. Longe dos males e aflições do mundo. Com certeza será um mundo melhor do que é hoje.

Suspiro. Estou cansado, e me fazendo parecer contraditório. Hora de me arrumar e sair de casa. Mais frivolidades minhas e sorrisos falsos, promessas falsas, e mentiras sobre onde vou, com quem vou e quando volto. Machi responde com mais frivolidades, ela não se importa, sei disso, sinto isso.

Essa garota vale ouro. Não. Machi esta mais para uma mulher de bronze. Forte, firme, mas o que a move não são ideais tão puros como seu pai imaginava. Sim, ela é a esposa perfeita para um militar. Ela sabe bem sobre cadeias de comando. Cadeias, prisões.

Saio de casa com algumas certezas, minha esposa não é quem eu pensava. Não me ama como amava. Estamos em guerra, e a verdade, mais uma vez foi à primeira vitima.

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