Março 06, 2008

O hippie e a funerária, a história dos quadrinhos alternativos, parte II

Olá fãs da arte seqüencial, prontos para a segunda parte de nosso giro sobre a história dos quadrinhos alternativos? Nosso giro começa com a entrada de Robert Crumb no mundo dos quadrinhos. Crumb era um artista que queria fazer quadrinhos que não falavam sobre super-heróis e que tinham sua visão particular do mundo.

Era o ano de 1967 e para editar sua história Crumb fez um escambo, seu toca fitas pela impressão. E deu certo, em 68 ele vendia sua história no berço hippie dos Estados Unidos à esquina das ruas Haight com Ashburyh em São Francisco.

Naquela década, depois do festival: tributo ao Dr. Estranho, os quadrinhos de super-heróis foram tragados pela mídia de massa e pela cultura popular. Assim tudo aquilo que não era um quadrinho de super-herói, estava fora do eixo cultural. Mas havia muita coisa fora deste “eixo”, Crumb era só mais um exemplo.

Estes quadrinhos se diferenciavam não só pelo fato de não conter super-heróis, mas pelos temas abordados. Estes quadrinhos eram um reflexo de sua época, não que os super heróis não fossem, mas lembre-se caro leitor que nesta época vigorava o Código das HQs, uma ferramenta do Governo Norte Americano para censurar histórias e manter os quadrinhos o mais longe de temas polêmicos possível.

Com o código não havia quadrinhos de super-heróis direcionados para um “entretenimento inteligente” ou até mesmo um “estímulo ao pensar humano”, esta parte foi lentamente aparecendo nos quadrinhos que não eram protagonizados por super-heróis. Obviamente some a isto o fato de que tanto artistas quanto editores das duas grandes editoras de super-heróis estavam ganhando muito dinheiro e muito prestígio.

Mas esta divisão que foi lentamente ganhando corpo realmente explodiu entre 76 e 77 quando Mario Puzo, que escreveu o “Poderoso Chefão”, iria escrever o roteiro de um filme do Superman onde Marlon Brando faria o papel do pai do herói. Logo em seguida temos outro sucesso do cinema: Star Wars, inspirado claramente nos clássicos de Jack Kirby “os novos Deuses” e em Cody Starbuck, de Howard Chaykin.

Inaugurava assim uma nova fase dos quadrinhos. Mais uma vez havia uma divisão baseada naqueles que tinham imponentes escritórios em lugares de prestígio e poder coberto de homens engravatados e mulheres de taillers e aqueles que faziam aquilo que gostavam da forma que queriam sem muitos recursos mas com parcerias inusitadas e efeitos muito curiosos.

Enquanto os editores de quadrinhos de super-heróis firmavam contrato com grandes produtoras de Hollywood para vender uma infinidade de bugigangas e ficarem mais ricos, os editores dos quadrinhos, agora sim, ditos “alternativos”, fazia incursões no mundo da música criando capas de discos, flyers para festas, grafites e camisetas.

Eram os últimos anos da década de setenta e o movimento punk explodia em toda sua fúria. Enquanto na música de dizia que bastavam três acordes para se ter uma música, nos quadrinhos se dizia que era necessária apenas uma idéia e um mimeógrafo. O punk e o mundo dos quadrinhos Alternativos fizeram um casamento tão poderoso quanto as duas grandes grifes de super-heróis fizeram com os estúdios Warner.

Rock e a vanguarda pop, este era o mundo dos quadrinhos alternativos. Para se ter uma idéia do que estamos falando numa revista da época uma entrevista foi totalmente transposta para quadrinhos. Era a exploração da linguagem de HQ de uma forma completamente inusitada. Tanto que foram os quadrinhos alternativos que aportaram na Mtv criando vinhetas e desenhos exclusivos como Aeon Flux e Liquid Television.

Neste ponto estava clara a ruptura do mercado que foi se acentuando cada vez mais. Tivemos os anos oitenta com o fim do Código dos Quadrinhos e o impacto profundo de Frank Miller, Neil Gaiman, Alan Moore e tantos outros no mundo dos super-heróis e a consolidação da parceria Marvel e DC comics com Holywood.

Aquilo que era chamado de “alternativo” ganhou novos ares também. Amadureceu, deixou de ser apenas um experimentalismo para se tornar uma forma de arte vanguardista. Misturavam pinturas políticas mexicanas com inspiração em Jack Kirby de forma equilibrada e muita bem sacada. Os quadrinhos alternativos ganharam um novo nome: independentes. Agora eles estavam livres das amarras de exigências do mercado tanto consumidor quanto editorial. Estavam comprometidos com suas artes apenas.

Mais uma vez interesses comerciais de um lado e pretensões intelectuais de outro. Os quadrinhos independentes mostravam sua aspiração e objetivo: ascender ao status de literatura. Nesta busca não bastava ser reconhecido como artista era necessário mais. E foi nesta época que entra em cena a ultima parte de nossa história: a rede de agências funerárias Kinney National Services.

Enquanto Crumb em 67 trocava seu toca fitas pela impressão de sua história (como Siegel e Shuster buscando uma forma de editar seu Superman nos anos 30) a rede de funerárias tomou um importante passo em sua história comercial, ela comprou a DC comics (que não fazia tanto sucesso quanto a Marvel naquela época).

Mais tarde os executivos vendo a proximidade entre o mundo dos quadrinhos e o mundo do cinema, acabaram por comprar os estúdios da Warner. Sim caro leitor, aqui é o momento onde você se pergunta embasbacado: “então quer dizer que por trás desta história toda havia uma questão de fusão comercial?” Sim, caríssimo leitor, havia. Não foi por coincidência que Superman foi feito pelos estúdios Warner.

Mas a história deste conglomerado não parou por ai não, durantes os anos oitenta uma nova fusão que misturou caixões, quadrinhos, cinema e notícias! Assim o conglomerado comprou a Time e criou a gigantesca Time-Warner. Assim também não é de se estranhar que os quadrinhos foram ganhando espaço na mídia.

Por isso tudo os quadrinhos independentes sempre nadaram realmente contra a maré. Sem esta rede que proporciona financiamentos, bons negócios e um belo funeral o que os quadrinhos independentes fizeram foi realmente digno de um super-herói!

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