Março 20, 2008

Keep on Truckin´

Sejam bem vindos queridos amigos para mais esta semana em nosso giro pelo mundo da arte impressa e seqüencial! Aproveitando o gancho de falar sobre quadrinhos alternativos (ou undergrounds ou ainda independentes...) gostaria de aprofundar um pouco mais na história de nosso querido hippie Crumb.

Robert Crumb nasceu em 30 de agosto de 1943, na Filadélfia estado da Pensilvânia nos Estados Unidos. Sua família era daquelas bem complicadas, seu pai era militar e o jovem Crumb cresceu em meio a bases militares e rodas de soldados. Seu irmão mais velho era um ávido fã de quadrinhos e obrigava Crumb a desenhar para ele, assim aos quinze anos Crumb já fazia quadrinhos.

Em 1960 Crumb deixa a família e vai morar com um amigo em Cleveland, estado de Ohio, lá conhece vários boêmios e entre eles um que se tornaria ídolo de Crumb e criador da revista MAD, Harvey Kurtzman e aquela que seria sua primeira esposa: Dana Morgan.

Neste momento Crumb e seu amigo de quarto Harvey Pekar quadrinizam histórias do cotidiano da classe média norte-americana sob um olhar crítico. Esta série acabou ganhando as telas anos depois como o filme American Splendor de Shari Springer Berman e Robert Pulcini. E foi neste contexto que em 1967 Crumb rumou para São Francisco o cerne da cultura hippie com seu toca-fitas e a vontade de publicar suas idéias.

A primeira revista em que Crumb trabalhou chamava-se Zap Comix e reunia vários artistas undergrounds. Dentre os vários personagens criados Mister Natural e Fritz, the cat, são os mais conhecidos. Mas o que faz de Crumb um ícone? Crumb foi um dos raros artistas que fazia exatamente o que queria. Um exemplo claro sobre sua personalidade foi quando aceitou fazer a capa do disco de Janis Joplin, Chilling Thrills. Aceitou de bom grado. Na época ele já era um artista conceituado e muito requisitado, e assim outra banda requisitou um trabalho seu: os Rolling Stones. Crumb não aceitou o trabalho por quê nunca gostou do som da banda.

Numa outra ocasião Crumb se envolveu na produção de uma animação par seu Fritz, the cat. Foi a primeira animação a receber a classificação X, ou seja pornográfico. A animação foi um sucesso de vendas. E no auge da fama, Crumb lança a edição em que Fritz morre vitima de um picador de gelo e uma mulher fatal! E não, não ouve retorno. Quando perguntaram o motivo daquilo ele disse: a fama matou Fritz.

Crumb é uma daquelas figuras que realmente causa impacto. Assim como Alan Moore e seu jeito (e gênio) ímpar, Crumb têm sua marca. Mas não é imune as mazelas da vida, nos anos setenta Crumb sofreu com várias disputas judiciais em torno de algumas criações suas, o que faz com que nos anos oitenta ele se retirasse da grande cena dos quadrinhos para atuar como editor.

Seus trabalhos ficaram mais amargurados e ainda mais críticos. Esta fase terminou em meados de 1994 quando Crumb exorciza o que ele chamou de “Sua Abutre Demoníaca” e assim nasceu a Devil Girl, uma contorcionista extremamente sensual cuja façanha é ficar numa pose arqueada de forma tão sexual que sua cabeça literalmente fica ao contrário. Assustador e sensual, não?

Este exorcismo foi tão diferente que envolveu uma editora que curiosamente tinha um braço na industria de doces, a Kitchen Sink. Se você achou estranho leitor, lembre-se de quem dá as cartas no maior conglomerado de entretenimento dos Estados Unidos, a Time-Warner, uma rede de funerárias. Sim os Estados Unidos são uma nação particularmente bizarra.

A União do exorcismo de Crumb e a editora-doceria foi à criação da barra de chocolates Devil Girl que vinha com os dizeres: “É RUIM para você!”. Além disso na frente do chocolate tínhamos o desenho da personagem ofertando sua piscadela mais maliciosa e dizendo “Coma-me”. Na lateral da barra, mais dizeres incríveis para um chocolate: “7 Males em 1; 1.sabor delicioso; 2.termina rápido; 3.ruim para sua saúde; 4.leva ao consumo de drogas pesadas; 5.dinheiro jogado fora; 6.feito por empresários preguiçosos; 7.abusa da imagem feminina”.

Além de a barra conter todas estas particularidades a caixinha ainda vinha com um aviso do sr.Crumb: “Aviso aos vendedores da barra de chocolate Devil Girl – pode parecer ter vindo da mais profunda ignorância em marketing a idéia de usar como slogam como É RUIM PARA VOCÊ, mas pense um pouco sobre isso... é uma estratégia brilhante considerando as crianças de hoje em dia; uma geração de estúpidos, cabeças ocas, entorpecidos que só pensam em ser maus. Estamos certos que esta horda de moralmente vencidos comedores de porcaria irão devorar este péssimo produto tão rápido quanto seja colocado nas prateleiras. Perceba, senhor tubarão dos negócios, a beleza (e os lucros) de nosso slogam: É RUIM PARA VOCÊ”.

As vendas foram um sucesso e quase meio milhão de caixas foram vendidas. As barras foram substituídas por outro doce de igual poder: uma bala de canela chamada O Beijo Cálido da Devil Girl. E assim Crumb retorna aos holofotes e uma nova geração conhece o artista. Hoje Crumb vive no Sul da França cheio de grandes, e audaciosos, projetos. Entre eles a quadrinização do velho testamento da bíblia. Crumb é renomado com o vigésimo dentro os cem maiores gênios vivos do mundo.

Exagerado ou não, Crumb sim é um contestador. Uma pessoa com idéias claras e de certo modo ousadas, considerando a quantidade de barreiras que comumente as pessoas colocam entre a felicidade e sua vida cotidiana. Crumb é um exemplo de alguém que faz aquilo que deseja e paga por seus atos. Hora preços medidos em direitos autorais, hora em uma fama “indesejada”, mas enfim, é um homem responsável por seus atos. Definitivamente Crumb deixou sua marca na história.

A visita do Tengu, parte VII - A hora de meu banquete

Estava no quinto mês de São Paulo, já conhecia todos os membros da Shindo Renmei, éramos um grupo sólido. Como uma tropa de elite. Brincávamos juntos, riamos juntos, bebíamos juntos, trabalhávamos juntos e acima de tudo dividíamos o mesmo amor à pátria!

Estávamos escrevendo sobre os andamentos da guerra naqueles dias, arrumando algumas informações e corrigindo algumas fotos quando um jovem entrou em nossa pequena gráfica afobado. Estava sendo perseguido por jovens ricos e desajuizados.

As marcas no corpo do menino foram à gota dágua para mim. Tirei a camisa, exibindo a faixa cerimonial por baixo dela, e marchei para fora contra os delinqüentes. Ali estavam eles, sete, parados com pedras e paus, com seus olhares perdidos e toda a empáfia que o dinheiro pode comprar.

Naquele instante senti que o espírito daquele menino imigrante estava repousando sobre meus ombros, ele era minha responsabilidade. Minha missão, meu dever, meu filho Itachi, e todas as verdades que queria falar para a “garota de ouro” com quem eu tinha casado. Naquele momento não era mais eu, o oficial do Império em missão, eu era mais do que um homem, um mortal, eu era o espírito do meu povo. O coração do povo pulsava em meu peito.

Os adolescentes ensandecidos partiram para cima de mim, e eu para cima deles, num grito vindo do fundo da alma. E quando nos chocamos percebi que não estava mais só, meus amigos, meus irmãos da Shindo Renmei estavam comigo. Lutamos juntos, e vencemos aquela batalha.

Os inimigos fugiram correndo e gritando sandices, nós ficamos todos parados, um olhando para o outro compartilhando o espírito de nosso povo que animava nossos corações. Naquele momento, se o maldito corvo da praça de Nanquim pudesse me ouvir, tenho certeza que ele iria tremer. E jamais iria me confundir com um almoço.

A policia chegou depois de alguns minutos, mas as pessoas nos protegeram, tivemos tempo de nos banhar e recompor até que fomos até a delegacia. Nada aconteceu, todos sabiam que quando pressionado toda fera ataca, e o delegado sabia que estavam nos pressionando.

No sexto mês a jovem Takahashi teve que partir. Ela e a família de meus grandes amigos e caricatos irmãos tinha que se mudar, São Paulo estava se tornando violenta demais. A guerra que eles fugiram estava os alcançando, e como pássaros continuariam sua jornada em busca de um lugar melhor, mais tranqüilo.

Eu me despedi de minha amante, com todo o fervor possível e imaginável. Nós sabíamos que não poderíamos ficar juntos, não era amor o que sentíamos, era mais do que isso. Era um fogo capaz de queimar nossa pele, incendiar nossas vidas, e tudo o que não precisávamos era cometer desatinos. Ela tinha sua idade e nome a zelar, eu tinha minha missão, que a cada dia exigia mais de mim. Nos amamos uma última vez.

Eu ajudei os Takahashi a partirem. Naquele dia chorei, chorei não por tristeza, mas por agradecimento. Naquela tarde de 1944 eu nascia para o mundo. Foi em meio a lágrimas que eu aceitei meu destino, e abracei meu futuro. Sai do Japão para cuidar do coração de meu povo, e tão longe de casa, meu povo é que cuidou de meu coração.

Não me sentia mais confuso. Não havia espaço para questionamentos ou para aquela mulher que era chamada de “ouro”. Suas complicações eram passado, eu estava diante do presente, diante do futuro. À noite saí com meus amigos da Shindo Renmei, nós bebemos e terminamos a noite cantando os hinos de nosso povo.

Os dias se passaram, vários contatos eu acabei fazendo para estimular mais a memória de nosso povo. Trabalhei com mais afinco, com mais gana, envolto no espírito do povo. Seis meses se passaram, seis meses onde deixei de ser aquele jovem soldado tolo e cheio de desconfiança e me tornei um representante de meu povo.

Aqui, junto de meus irmãos eu conheci algo maior do que o casamento. Algo maior do que as hierarquias de comando, ou as frivolidades do cotidiano. Eu encontrei aquilo que faz um soldado, aquilo que faz um samurai, o gosto pela luta. A luta por aquilo que acreditamos, a luta por nosso quinhão sagrado de vida.

Um vento gelado atravessa a janela. Meu cigarro se acabou faz tempo. Comprimento um homem na rua. E quando olho diante de mim, para o vale de residências que desfila em minha visão, eu vejo uma ave negra sentada no fio de eletricidade.

Minha garganta fica seca. Eu olho bem para saber se não estou sonhando. Estou num pais tropical, numa cidade grande...Aqui não existem corvos! Entro e me fecho em casa, sentindo algo que não sinto há muito tempo, medo.

Eu o vejo pela ultima vez. Ali sentado à janela, empoleirado com seu cigarro, cheio de si. Banhado pela luz vermelha do néon. Como quando nos vimos pela primeira vez. Ele deitado nos corpos, sorrindo feito um imbecil. Tripudiando com seus amigos sobre os cadáveres de milhares de inocentes.

Orgulhoso de sua obra. Anestesiado por seu cotidiano de massacres. Embriagado e entorpecido por seus brinquedos, suas armas e seus conhecimentos. Eu o vejo, sinto o cheiro dele, ele me dá água na boca. É meu alimento, minha caça, minha propriedade. Seu orgulho e arrogância serão meu alimento.

Eu deixo que ele me veja, e me delicio vendo a cara de espantado dele. Eu sempre o vejo, eu sempre o ajudo, não quero enfrentar um inimigo fraco. Quero-o forte, no ápice de seu poder. Eu dei a ele tudo o que ele precisava. Tirei-lhe as dúvidas e deixei que ele fosse em busca das certezas, suas certezas.

Aqui, nesta terra, ele encontrou outra situação difícil, e não percebe que esta na mesma situação de quando nos conhecemos. Mais uma vez o ciclo se fecha, e mais uma vez ele não aprende sua lição, não evolui, não segue em frente. Permanece monolítico em suas prisões tragando inocentes como os habitantes de Nanquim, sua esposa e filhos, e os Takahashi...Ele não percebe o mal que faz, não percebe nada alem daquilo que quer perceber.

Assassinando diariamente a verdade, destruindo a inocência de várias pessoas, ele segue cheio de si pelo mundo, e não percebe nada. Não percebe que o único culpado por tudo que acontece na vida dele, é ele mesmo. Enfim, ele esta quase pronto para ser servido. Esta chegando à hora de meu banquete.

A visita do Tengu, parte VI - Um real senhor Sabato

Abro a janela do quarto onde moro. Há um néon aqui na frente, ele inunda meu quarto de vermelho e azul. É um quarto pequeno e abafado, e esta é uma noite particularmente quente. Seis meses se passaram desde que cheguei.

Com a janela aberta acendo um cigarro e fumo despreocupadamente. Minha calça de dormir é folgada e me permite sentar facilmente na janela, assim posso ver a noite. Nestes seis meses conheci pessoas, fiz meus contatos e me juntei a Shindo Rimei. Tudo corre conforme o planejado.

Conheci um pouco de como estão vivendo nossos patrícios. E não gostei disso, há muita dureza na vida deles. Aqui, no coração do inimigo tudo o que eles encontram é solidão e desprezo. Nossa cultura luta impiedosamente, os costumes são bem diferentes.

Temos que nos acostumar com as piadas de mal gosto e os abusos que o povo daqui nos dedica. Em tempos de guerra nada pior do que uma colônia em território inimigo. Mas nosso espírito é bravo, imbatível! E aqui se encontram os patrícios que saíram do Japão em épocas ruins, tão ruins quanto esta.

Agora revejo minhas crenças. O espírito do povo precisa de força. Sinto-me um tolo por ter duvidado dos ideais de nosso Imperador. Guerras não são lugares aprazíveis, longe disso. Muitos fogem dela, e o que encontram quando fixam suas novas moradas? Hostilidade.

Esta guerra esta durando tempo demais. Consumindo vidas demais. Ouço falar de nossos aliados, dos guetos Alemães e da campanha Brasileira na Itália. Há tantos fatores envolvidos, eu não sabia disso, de nada disso.

Nós lutamos por coisas que parecem estar completamente fora da visão dos outros. Nós temos uma forte ligação com os céus, ele nos deu um Imperador. Assim como aqui todos falam que os céus lhe deram um sacerdote. Para nós, conquistar as terras no continente é estratégico, nós estamos numa ilha, precisamos de mais terra.

Mas e nossos aliados? Lutam pela supremacia de sua raça e idéias. Somos diferentes, cada um de nós. Cada um luta por algo completamente diferente, esta não é uma guerra, são várias. E nos colocam como mentirosos por aqui. Chama-nos de assassinos, facínoras e anti-semitas.

Este mundo esta louco. E eu estou no cerne da loucura. Eu protejo nosso povo destas hostilidades aqui. Desde que começamos a fazer nosso próprio jornal tenho colocado uma outra visão sobre os andamentos da guerra. Tenho lutado para que nosso espírito inquebrantável torne-se forte.

Muitos olham para mim com desconfiança. O próprio governo desta terra olha para mim com desconfiança. Mas eu não ligo, estou numa missão, que começou como todas as outras, num âmbito terreno, mas agora...Agora percebo o quão sagrada é minha luta, eu luto pelo espírito do meu povo. E quem me ordena não é ninguém menos do que um filho dos céus.

Nestes últimos seis meses eu me estabeleci bem. Conheci toda a caricata família de Takahashi. Acabei me envolvendo com uma de suas irmãs, a mais nova. Uma bela moça dotada de um corpo que eu nunca vi igual. A mistura de nossos povos produziu uma beleza ímpar.

Comecei a trabalhar na feira municipal com a família Takahashi. E aos poucos fui conhecendo mais sobre como estavam nossos patrícios. A dura vida cotidiana, a escolha pelas áreas rurais, e a dificuldade de manter nossa cultura. Coisas simples como o clima mais quente, e a alimentação...A abundancia da carne...

No começo eu pensava em Machi, mais do que em meu filho. Tinha saudades. Mas a jovem Takahashi me fez lembrar que um homem é muito mais do que seus sentimentos. E nos braços dela encontrei algo que reluz mais do que ouro, ou bronze. O sangue. O fervor do sangue.

Itachi é diferente, eu faço isso por ele. Ele sempre será um bebê para mim. Uma linda e frágil vida. Como tantas que eu vi aqui. Senhoras e senhores velinhos passando fome, outros com semblantes pesados, temerosos com a guerra, com o caminhar desta violência toda.

Mulheres, mães e irmãs, todas inseguras quanto ao destino de seus entes queridos. Aqueles que estudam, tem medo das chacotas, das violências praticadas contra nosso povo. Há briga entre as colônias, há um estado de emergência, e o governo que nos protege, manda soldados para matarem nossos irmãos do front.

Essa fragilidade toda tem o rosto de Itachi. Eu penso nele todo dia, toda hora. Escrevo cartas, que um dia entregarei em mãos, cada carta escrita com o coração apertado, aflito. Sem escrever esta missão seria quase impossível. Mas com as cartas sinto que algo bom esta acontecendo há uma esperança.

Transformador é assim que posso definir o que esta me acontecendo. Os dias que passo entre os Takahashi são divertidos, as noites são quentes e prazerosas. E ali permaneci até ser apresentado a toda colônia, e conhecer a Shindo Renmei. Nós começamos a trabalhar juntos no terceiro mês de minha estadia. Eu fui deixando os Takahashi, e me integrando ao cotidiano da organização.

Começamos a produzir um jornal, a realizar festas típicas e a estimula nossa cultura. O que começou a me colocar frente a coisas de minha infância, foras às semanas mais felizes do mundo, e o tempo onde eu e a jovem Takahashi mais aproveitamos o frescor de nossos corpos. No final do quarto mês, eu não me lembrava mais do gosto do beijo de Machi, nem de como era dormir com ela, tudo que eu sabia é que estava deixando de ser Tatsumasa realmente...Nascia um real senhor Sabato.

Março 06, 2008

O hippie e a funerária, a história dos quadrinhos alternativos, parte II

Olá fãs da arte seqüencial, prontos para a segunda parte de nosso giro sobre a história dos quadrinhos alternativos? Nosso giro começa com a entrada de Robert Crumb no mundo dos quadrinhos. Crumb era um artista que queria fazer quadrinhos que não falavam sobre super-heróis e que tinham sua visão particular do mundo.

Era o ano de 1967 e para editar sua história Crumb fez um escambo, seu toca fitas pela impressão. E deu certo, em 68 ele vendia sua história no berço hippie dos Estados Unidos à esquina das ruas Haight com Ashburyh em São Francisco.

Naquela década, depois do festival: tributo ao Dr. Estranho, os quadrinhos de super-heróis foram tragados pela mídia de massa e pela cultura popular. Assim tudo aquilo que não era um quadrinho de super-herói, estava fora do eixo cultural. Mas havia muita coisa fora deste “eixo”, Crumb era só mais um exemplo.

Estes quadrinhos se diferenciavam não só pelo fato de não conter super-heróis, mas pelos temas abordados. Estes quadrinhos eram um reflexo de sua época, não que os super heróis não fossem, mas lembre-se caro leitor que nesta época vigorava o Código das HQs, uma ferramenta do Governo Norte Americano para censurar histórias e manter os quadrinhos o mais longe de temas polêmicos possível.

Com o código não havia quadrinhos de super-heróis direcionados para um “entretenimento inteligente” ou até mesmo um “estímulo ao pensar humano”, esta parte foi lentamente aparecendo nos quadrinhos que não eram protagonizados por super-heróis. Obviamente some a isto o fato de que tanto artistas quanto editores das duas grandes editoras de super-heróis estavam ganhando muito dinheiro e muito prestígio.

Mas esta divisão que foi lentamente ganhando corpo realmente explodiu entre 76 e 77 quando Mario Puzo, que escreveu o “Poderoso Chefão”, iria escrever o roteiro de um filme do Superman onde Marlon Brando faria o papel do pai do herói. Logo em seguida temos outro sucesso do cinema: Star Wars, inspirado claramente nos clássicos de Jack Kirby “os novos Deuses” e em Cody Starbuck, de Howard Chaykin.

Inaugurava assim uma nova fase dos quadrinhos. Mais uma vez havia uma divisão baseada naqueles que tinham imponentes escritórios em lugares de prestígio e poder coberto de homens engravatados e mulheres de taillers e aqueles que faziam aquilo que gostavam da forma que queriam sem muitos recursos mas com parcerias inusitadas e efeitos muito curiosos.

Enquanto os editores de quadrinhos de super-heróis firmavam contrato com grandes produtoras de Hollywood para vender uma infinidade de bugigangas e ficarem mais ricos, os editores dos quadrinhos, agora sim, ditos “alternativos”, fazia incursões no mundo da música criando capas de discos, flyers para festas, grafites e camisetas.

Eram os últimos anos da década de setenta e o movimento punk explodia em toda sua fúria. Enquanto na música de dizia que bastavam três acordes para se ter uma música, nos quadrinhos se dizia que era necessária apenas uma idéia e um mimeógrafo. O punk e o mundo dos quadrinhos Alternativos fizeram um casamento tão poderoso quanto as duas grandes grifes de super-heróis fizeram com os estúdios Warner.

Rock e a vanguarda pop, este era o mundo dos quadrinhos alternativos. Para se ter uma idéia do que estamos falando numa revista da época uma entrevista foi totalmente transposta para quadrinhos. Era a exploração da linguagem de HQ de uma forma completamente inusitada. Tanto que foram os quadrinhos alternativos que aportaram na Mtv criando vinhetas e desenhos exclusivos como Aeon Flux e Liquid Television.

Neste ponto estava clara a ruptura do mercado que foi se acentuando cada vez mais. Tivemos os anos oitenta com o fim do Código dos Quadrinhos e o impacto profundo de Frank Miller, Neil Gaiman, Alan Moore e tantos outros no mundo dos super-heróis e a consolidação da parceria Marvel e DC comics com Holywood.

Aquilo que era chamado de “alternativo” ganhou novos ares também. Amadureceu, deixou de ser apenas um experimentalismo para se tornar uma forma de arte vanguardista. Misturavam pinturas políticas mexicanas com inspiração em Jack Kirby de forma equilibrada e muita bem sacada. Os quadrinhos alternativos ganharam um novo nome: independentes. Agora eles estavam livres das amarras de exigências do mercado tanto consumidor quanto editorial. Estavam comprometidos com suas artes apenas.

Mais uma vez interesses comerciais de um lado e pretensões intelectuais de outro. Os quadrinhos independentes mostravam sua aspiração e objetivo: ascender ao status de literatura. Nesta busca não bastava ser reconhecido como artista era necessário mais. E foi nesta época que entra em cena a ultima parte de nossa história: a rede de agências funerárias Kinney National Services.

Enquanto Crumb em 67 trocava seu toca fitas pela impressão de sua história (como Siegel e Shuster buscando uma forma de editar seu Superman nos anos 30) a rede de funerárias tomou um importante passo em sua história comercial, ela comprou a DC comics (que não fazia tanto sucesso quanto a Marvel naquela época).

Mais tarde os executivos vendo a proximidade entre o mundo dos quadrinhos e o mundo do cinema, acabaram por comprar os estúdios da Warner. Sim caro leitor, aqui é o momento onde você se pergunta embasbacado: “então quer dizer que por trás desta história toda havia uma questão de fusão comercial?” Sim, caríssimo leitor, havia. Não foi por coincidência que Superman foi feito pelos estúdios Warner.

Mas a história deste conglomerado não parou por ai não, durantes os anos oitenta uma nova fusão que misturou caixões, quadrinhos, cinema e notícias! Assim o conglomerado comprou a Time e criou a gigantesca Time-Warner. Assim também não é de se estranhar que os quadrinhos foram ganhando espaço na mídia.

Por isso tudo os quadrinhos independentes sempre nadaram realmente contra a maré. Sem esta rede que proporciona financiamentos, bons negócios e um belo funeral o que os quadrinhos independentes fizeram foi realmente digno de um super-herói!

A visita do Tengu, parte V - Glória e honra

Dia da partida. Esta tudo pronto, minhas malas estão comigo, os passaportes falsos, tudo arranjado. Machi e Itachi me olham friamente. Eu me despeço de meu filho, um longo abraço. Não há lágrimas...Ele esta aprendendo rapidamente a ser um adulto.

Machi. Seu abraço não tem ternura, é mais frio do que o quimono dela. Eu a abraço com força, quero esquentá-la. Mas ela esta alem de qualquer calor meu. Sinto um cheiro diferente nela, reconheço bem o que isto significa. É cheiro de nanquim. E significa que ambos irão ficar bem sem mim.

Eu deixo meus olhos encharcarem, não há lágrimas, só existem certezas. Aquele episódio fatídico deixou marcas. Em mim, em nós, e no mundo. Mas não há com que se preocupar, eu faço um carinho no queixo dela. Foram ordens, e num mundo perfeito, no mundo de nossos sonhos estas coisas não iriam acontecer.

Mais uma vez me sinto em contradição. É o momento da retirada, me viro e parto para o avião. Meu destino me aguarda, São Paulo, Brasil.

Dia da partida. Itachi segura firme minha mão. Ele não quer que o pai vá embora. Eu não quero que ele fique aqui. Pobre menino, mas vai passar, ele tem a mim. E eu não vou criá-lo num mundo de contradições e meias verdades, vou criá-lo para ser um homem responsável por seus atos.

Nosso império pode vencer quantas guerras quiser, nada de bom virá de tanta morte. O sangue é necessário para a vida, mas não esse tipo de sangue, não há nada de sagrado nele, há apenas dor, angustia e mentiras. E este homem, Tatsumasa, meu marido, é o símbolo desta condição humana deplorável.

Observo ele abraçar Itachi, meu filho, nosso filho. O menino quase chora, mas se contém. Então ele me envolve com seus braços, rígidos como armas. O corpo dele inteiro é uma arma. Sempre rígido e sempre forte. Não há espaço para suavidade nele, não há espaço para humanidade nele. Qual a diferença entre este homem e um tigre? Nenhuma.

Seus passos são contraditórios. Ele deseja ficar, mas irá embora. Esta perdido dentro dele, com certeza não percebe o quanto Itachi esta se esforçando para não perder seu presente. Seu pai. Como também não deve estar prestando atenção em quanto mal ele fez a mim, ao amor que juramos manter.

Ele se vira e sai. E também não percebe que é seguido de perto por uma mulher. Seus cabelos finos e longos, pretos como a noite, suas feições delicadas e o nariz desproporcional, fino e alongado. Ela sabe aonde vai, ela percebe. Ela olha para mim, sorri.

Eu devolvo o sorriso. Olho para aquele homem mais uma última vez. Tomo Itachi nos braços, e começamos nossa longa caminhada de volta à nossa casa.

O avião pousa em São Paulo. Uma bela cidade. Mais bonita que nas fotos. Caminho pelo aeroporto, agora não sou mais quem eu era. Chamo-me Sabato, Hideo Sabato. Em poucos instante vejo meu contato, Jorge Takahashi, vestindo um avental azul sujo. É um sujeito encorpado, misturando os traços orientais com traços típicos do ocidente.

Seus longos cabelos desgrenhados, seu fino bigode e o cheiro de frutas formam uma figura caricata. Quase tenho vontade de rir. Penso no espírito de nosso povo. Conversamos muito e incessantemente. Ele fala mal a língua dos pais, mas isso não o impede, nem o envergonha, o homem parece uma metralhadora!

Em momentos sei mais sobre a cultura paulistana do que aprendi nos últimos nove meses. Nós rodamos a cidade num caminhão velho. Sinto-me diferente, respiro um ar diferente...Estou de novo em solo inimigo. Estou tão exaltado que poderia gritar. Estou aonde deveria estar, no front.

Agora nada me irrita. Nem o falatório desembestado, nem o cheiro de frutas, nem a figura caricata ao meu lado. Aqui eu estou seguro e livre. Aqui não há Machi e seu pai, só há o campo para fazer o futuro para Itachi, aqui só há glória e honra. Tudo que um soldado precisa... Glória e honra.

A visita do Tengu, parte IV - A verdade, mais uma vez, foi a primeira vítima

Tenho nove meses para aprender a cultura Brasileira, é o máximo de tempo possível, segundo meus superiores. Não é muito, mas também não irei sair daqui um falante na língua local, meu intuito é outro. É estimular os corações, os espíritos de nossos patrícios.

Ouço musica do Brasil, estudo revistas e ainda tenho aulas de português e história. Tudo muito sintético, tudo muito esterilizado. Meus orientadores se revezam, são cargas de oito horas diárias, fora o tempo de estudo em casa.

Itachi anda estranho, e Machi esta mais estranha ainda. Não há muito amor quando estamos na cama, parece mais com dever. Ela não conversa mais comigo, não sei se esta chateada pela missão. Estou me sentindo num vôo cego.

Um dia chego mais cedo do trabalho, e vejo saindo de casa ma mulher. A distancia não a reconheço, é morena, esguia, cabelos finos, longos e pretos. Ela sai de casa e se despede de Machi na porta. Eu diminuo o passo, não quero atrapalhar. A mulher se vai, e eu volto a minha passada normal.

“Uma visita, querida?” Pergunto sorridente! “Sim, uma amiga do templo” ela responde como se eu soubesse perfeitamente quem é a amiga. Dou de ombros, tenho muito a fazer, quando ela quiser irá falar comigo. Ela vale ouro.

Estou sentado na sala de aula improvisada do quartel. O sono toma conta de mim, fazem dias que e não durmo direito. Machi anda irritada, meus estudos estão evoluindo lentamente, estou com uma péssima sensação. Como se esquecesse de algo.

“Tatsumasa, seu dia esta chegando. Mas vejo que você anda muito cabisbaixo. Veja bem, há momentos em que as esposas não oferecem mais a seus maridos o frescor e a revigorância de uma bela noite! Por isso, quero que venha comigo, vamos nos divertir esta noite! Como no front!” O oficial diz isso em meio a sorrisos.

Seu sorriso é branco e perolado. O Oficial é um homem corpulento, de pele amorenada e olhos bem marcados. Sei que faz sucesso com as mulheres, a fama dele o precede. Dizem que numa visita à Alemanha ele causou frisson entre as oficiais!

Em casa, no jantar, Machi conversa frivolidades. Frivolidades é tudo que eu quero neste momento que antecede à traição. Entretanto frivolidades tem se tornado a tônica de nosso casamento. E neste sentido, as frivolidades são a única expressão de nosso amor.

É engraçado como o amor se transforma rápido. Posso dizer que em semanas Machi mudou, desde o episódio do banheiro. Nunca tive estas crises, e estamos em guerra...É tudo compreensível e normal! Sou um soldado, um oficial que faz a vida no front! Tudo bem que agora estou num período de tranqüilidade, mas ele apenas antecede minha nova missão.

Machi tem que entender, ela precisa entender isso. Ela é uma garota que vale ouro, foi o que o pai dela disse, não há motivos para que eu me preocupe. Mas agora, tudo que tenho são as frivolidades, esta é a única expressão de nosso casamento.

Que seja então. Esta noite terei uma bela “noitada revigorante” como nos bons e velhos tempos. Quando as coisas eram simples, eu só precisava decidir onde e quando atirar. Por isso gosto do exército, não há espaço para estas complicações, só existem ordens, comandos, e comandados.

Olho bem para meu filho, ele me faz pensar. E este é o tipo de pensamento que eu gosto. Pensar em como ele será quando crescer...Num mundo onde nosso império será vasto e poderoso. Longe dos males e aflições do mundo. Com certeza será um mundo melhor do que é hoje.

Suspiro. Estou cansado, e me fazendo parecer contraditório. Hora de me arrumar e sair de casa. Mais frivolidades minhas e sorrisos falsos, promessas falsas, e mentiras sobre onde vou, com quem vou e quando volto. Machi responde com mais frivolidades, ela não se importa, sei disso, sinto isso.

Essa garota vale ouro. Não. Machi esta mais para uma mulher de bronze. Forte, firme, mas o que a move não são ideais tão puros como seu pai imaginava. Sim, ela é a esposa perfeita para um militar. Ela sabe bem sobre cadeias de comando. Cadeias, prisões.

Saio de casa com algumas certezas, minha esposa não é quem eu pensava. Não me ama como amava. Estamos em guerra, e a verdade, mais uma vez foi à primeira vitima.