Sejam bem vindos queridos amigos para mais esta semana em nosso giro pelo mundo da arte impressa e seqüencial! Aproveitando o gancho de falar sobre quadrinhos alternativos (ou undergrounds ou ainda independentes...) gostaria de aprofundar um pouco mais na história de nosso querido hippie Crumb.
Robert Crumb nasceu em 30 de agosto de 1943, na Filadélfia estado da Pensilvânia nos Estados Unidos. Sua família era daquelas bem complicadas, seu pai era militar e o jovem Crumb cresceu em meio a bases militares e rodas de soldados. Seu irmão mais velho era um ávido fã de quadrinhos e obrigava Crumb a desenhar para ele, assim aos quinze anos Crumb já fazia quadrinhos.
Em 1960 Crumb deixa a família e vai morar com um amigo em Cleveland, estado de Ohio, lá conhece vários boêmios e entre eles um que se tornaria ídolo de Crumb e criador da revista MAD, Harvey Kurtzman e aquela que seria sua primeira esposa: Dana Morgan.
Neste momento Crumb e seu amigo de quarto Harvey Pekar quadrinizam histórias do cotidiano da classe média norte-americana sob um olhar crítico. Esta série acabou ganhando as telas anos depois como o filme American Splendor de Shari Springer Berman e Robert Pulcini. E foi neste contexto que em 1967 Crumb rumou para São Francisco o cerne da cultura hippie com seu toca-fitas e a vontade de publicar suas idéias.
A primeira revista em que Crumb trabalhou chamava-se Zap Comix e reunia vários artistas undergrounds. Dentre os vários personagens criados Mister Natural e Fritz, the cat, são os mais conhecidos. Mas o que faz de Crumb um ícone? Crumb foi um dos raros artistas que fazia exatamente o que queria. Um exemplo claro sobre sua personalidade foi quando aceitou fazer a capa do disco de Janis Joplin, Chilling Thrills. Aceitou de bom grado. Na época ele já era um artista conceituado e muito requisitado, e assim outra banda requisitou um trabalho seu: os Rolling Stones. Crumb não aceitou o trabalho por quê nunca gostou do som da banda.
Numa outra ocasião Crumb se envolveu na produção de uma animação par seu Fritz, the cat. Foi a primeira animação a receber a classificação X, ou seja pornográfico. A animação foi um sucesso de vendas. E no auge da fama, Crumb lança a edição em que Fritz morre vitima de um picador de gelo e uma mulher fatal! E não, não ouve retorno. Quando perguntaram o motivo daquilo ele disse: a fama matou Fritz.
Crumb é uma daquelas figuras que realmente causa impacto. Assim como Alan Moore e seu jeito (e gênio) ímpar, Crumb têm sua marca. Mas não é imune as mazelas da vida, nos anos setenta Crumb sofreu com várias disputas judiciais em torno de algumas criações suas, o que faz com que nos anos oitenta ele se retirasse da grande cena dos quadrinhos para atuar como editor.
Seus trabalhos ficaram mais amargurados e ainda mais críticos. Esta fase terminou em meados de 1994 quando Crumb exorciza o que ele chamou de “Sua Abutre Demoníaca” e assim nasceu a Devil Girl, uma contorcionista extremamente sensual cuja façanha é ficar numa pose arqueada de forma tão sexual que sua cabeça literalmente fica ao contrário. Assustador e sensual, não?
Este exorcismo foi tão diferente que envolveu uma editora que curiosamente tinha um braço na industria de doces, a Kitchen Sink. Se você achou estranho leitor, lembre-se de quem dá as cartas no maior conglomerado de entretenimento dos Estados Unidos, a Time-Warner, uma rede de funerárias. Sim os Estados Unidos são uma nação particularmente bizarra.
A União do exorcismo de Crumb e a editora-doceria foi à criação da barra de chocolates Devil Girl que vinha com os dizeres: “É RUIM para você!”. Além disso na frente do chocolate tínhamos o desenho da personagem ofertando sua piscadela mais maliciosa e dizendo “Coma-me”. Na lateral da barra, mais dizeres incríveis para um chocolate: “7 Males em 1; 1.sabor delicioso; 2.termina rápido; 3.ruim para sua saúde; 4.leva ao consumo de drogas pesadas; 5.dinheiro jogado fora; 6.feito por empresários preguiçosos; 7.abusa da imagem feminina”.
Além de a barra conter todas estas particularidades a caixinha ainda vinha com um aviso do sr.Crumb: “Aviso aos vendedores da barra de chocolate Devil Girl – pode parecer ter vindo da mais profunda ignorância em marketing a idéia de usar como slogam como É RUIM PARA VOCÊ, mas pense um pouco sobre isso... é uma estratégia brilhante considerando as crianças de hoje em dia; uma geração de estúpidos, cabeças ocas, entorpecidos que só pensam em ser maus. Estamos certos que esta horda de moralmente vencidos comedores de porcaria irão devorar este péssimo produto tão rápido quanto seja colocado nas prateleiras. Perceba, senhor tubarão dos negócios, a beleza (e os lucros) de nosso slogam: É RUIM PARA VOCÊ”.
As vendas foram um sucesso e quase meio milhão de caixas foram vendidas. As barras foram substituídas por outro doce de igual poder: uma bala de canela chamada O Beijo Cálido da Devil Girl. E assim Crumb retorna aos holofotes e uma nova geração conhece o artista. Hoje Crumb vive no Sul da França cheio de grandes, e audaciosos, projetos. Entre eles a quadrinização do velho testamento da bíblia. Crumb é renomado com o vigésimo dentro os cem maiores gênios vivos do mundo.
Exagerado ou não, Crumb sim é um contestador. Uma pessoa com idéias claras e de certo modo ousadas, considerando a quantidade de barreiras que comumente as pessoas colocam entre a felicidade e sua vida cotidiana. Crumb é um exemplo de alguém que faz aquilo que deseja e paga por seus atos. Hora preços medidos em direitos autorais, hora em uma fama “indesejada”, mas enfim, é um homem responsável por seus atos. Definitivamente Crumb deixou sua marca na história.




